terça-feira, 17 de abril de 2018

Obra fundamental - O Evangelho Segundo o Espiritismo


Se o Evangelho Segundo o Espiritismo não fosse uma obra doutrinária fundamental, o Espírito da Verdade não teria escrito esse prefácio nem Kardec teria feito essa nota para destacar que o objetivo da obra resume o caráter do Espiritismo.

Prefácio

Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da Terra. Semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abri os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos.

As grandes vozes do céu ressoam como o toque da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao divino concerto: que vossas mãos tomem a lira, que vossas vozes se unam, e, num hino sagrado, se estendam e vibrem, de um extremo do Universo ao outro.

Homens, irmãos amados, estamos juntos de vós. Amai-vos também uns aos outros, e dizei, do fundo de vosso coração, fazendo a vontade do Pai que está no Céu: “Senhor! Senhor!” e podereis entrar no Reino dos Céus.

O ESPÍRITO DE VERDADE

Nota: A instrução acima, transmitida por via mediúnica, resume ao mesmo tempo o verdadeiro caráter do Espiritismo, e o objetivo desta obra. Por isso, foi aqui colocada como prefácio. (A.K)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Não vos deixei cair nessa armadilha


Um oportuno texto de Kardec sobre o porquê não devemos cair na armadilha preparada por adversários do Espiritismo que é levar à casa espírita a discussão política

"Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. NÃO VOS DEIXEIS CAIR NESSA ARMADILHA; afastai cuidadosamente de vossas reuniões TUDO QUANDO SE REFERE À POLÍTICA E A QUESTÕES IRRITANTES; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa. Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar: eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural; trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, e deixareis a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, OPONDE UMA FIRMEZA INQUEBRANTÁVEL AOS QUE QUISEREM VOS ARRASTAR POR UMA VIA PERIGOSA."

ALLAN KARDEC – Trecho extraído da Revista Espírita - fev/1862 - Resposta à mensagem de Ano Novo dos espíritas lioneses.




segunda-feira, 5 de março de 2018

Seminário USE - A Gênese: o resgate histórico -04/03/18

 

   
O excelente evento da USE realizado em 4/mar na cidade de São Paulo celebrando os 150 anos do lançamento do livro A Gênese com o seminário da diplomata e pesquisadora Simoni Privato, convidou à reflexão e esclareceu sobre as alterações ocorridas na 5a edição desta obra.
O público foi composto por cerca de 500 inscritos e milhares de pessoas que assistiram o seminário via internet. Após a apresentação de Simoni, formou-se um painel para debates onde as questões mais comuns sobre a autoria das modificações foram discutidas, confirmando que não há evidências de que teria sido Kardec o autor das mesmas. A única certeza é de que a 4a edição expressa fielmente o pensamento de Kardec e está mais coerente doutrinariamente do que a 5ª edição.
Parabéns à USE-SP e à Simoni Privato pela iniciativa e coragem de trazer este assunto ao Movimento Espírita Brasileiro.

Assista o seminário A Gênese: o resgate histórico clicando abaixo:





sábado, 3 de março de 2018

Contra-argumentação de que Kardec seria o autor das alterações da 5ª edição do livro A Gênese



CONTRAPONTOS AOS ARGUMENTOS GERALMENTE UTILIZADOS PARA SE ATRIBUIR A ALLAN KARDEC A AUTORIA DAS ALTERAÇÕES NO TEXTO DA 5ª EDIÇÃO DA OBRA “A GÊNESE”

Marco Milani


Argumentos
Contrapontos
Kardec sempre alterava as suas obras.
Até a 4ª edição, publicada em fev/1869 (um mês antes de desencarnar), Kardec não promoveu qualquer alteração na obra, nem deixou qualquer registro de que pretendia alterá-la.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
O fato de não haver documento ou registro de que Kardec pretendia alterar o texto da obra, não quer dizer que ele não as tenha realizado.
Sim, da mesma maneira que não quer dizer que ele tenha pretendido alterar a obra. Há mais de uma centena de alterações entre adições, supressões e reordenamento de palavras, trechos e parágrafos na 5ª edição. Nada impediria dele as ter realizado em apenas um mês, assim como as alterações podem não ter sido feitas por ele.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
O texto da 5ª edição é mais conciso e coerente do que a 4ª edição, sem prejuízo ao conteúdo, sinalizando que Kardec aprimorou a redação.
Falso. Há prejuízo no conteúdo. Por exemplo, na 4ª edição, o desaparecimento do corpo de Jesus é discutido nos itens 64 a 68 no capítulo XV. A 5ª edição excluiu integralmente o item 67, que é aquele que, justamente, apresenta as hipóteses plausíveis para explicar o desaparecimento do corpo. Na 5ª edição, não há a apresentação de hipóteses explicativas, fragilizando a reflexão sobre o objeto em discussão, portanto não pode ser considerado um aprimoramento. Nada impede que Kardec tenha revisto e fragilizado o texto, assim como nada sinaliza que tenha sido ele o autor dessa fragilização.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Henri Sausse só se manifestou sobre as alterações após o desencarne de Amélie Boudet, que seria uma pessoa relevante a esclarecer os fatos.
Verdadeiro. Henri Sausse explica que comparou as edições somente após ter sido informado por um conhecido que Leymarie teve que fazer alterações na obra para corrigir o texto de Kardec. Esse relato foi publicado no jornal Le Spiritisme - ed. 23. Essa manifestação posterior ao desencarne de Amélie Boudet não significa nem apresenta vínculo direto de que Kardec tenha modificado a obra.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Amélie Boudet teria impedido a publicação da 5ª edição se as alterações não tivessem sido feitas por Kardec.
Especulativo. Não há qualquer evidência de que Amélie Boudet tivesse comparado e identificado as alterações, pressupondo confiança na declaração do responsável (P.G. Leymarie) pela publicação de que teria sido Kardec a modificar a própria obra, ainda que sem qualquer registro dessa alegação. Acrescenta-se à reflexão, ainda, o questionamento sobre o poder efetivo de interferência de Amélie Boudet nas decisões dos responsáveis pelas publicações, porém isso também é especulativo.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Conforme depoimentos de Deslien nas edições da Revista Espírita de dez/1884 e mar/1885, Kardec teria alterado pessoalmente as placas de impressão e teria autorizado à livraria Rouge, Dusnon y Fraisné a publicação da 4ª, 5ª e 6ª edições, já alteradas, o que ocorreria de 1869 a 1871.
Falso. A 4ª edição, publicada em fev/1869 é idêntica à 1ª edição, portanto as placas não foram alteradas. A 5ª edição só foi publicada em 1872 e não há qualquer registro de que Kardec tenha promovido posteriormente as alterações nas placas ou deixado autorização para isso, sendo que seu desencarne ocorreu em mar/1869 (um mês somente após a publicação da 4ª edição).
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O prefácio que provavelmente você não viu no livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec


Prefácio do livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec *

O título desta obra indica claramente seu objeto. Reunimos aqui todos os elementos capazes de esclarecer o homem sobre seu destino. Como em nossos outros escritos sobre a doutrina espírita, não pusemos aqui nada que seja produto de um sistema preconcebido ou de uma outra concepção pessoal que não teria nenhuma autoridade: tudo aqui é deduzido da observação e da concordância dos fatos.

O Livro dos Espíritos contém as bases fundamentais do espiritismo; é a pedra angular do edifício; todos os princípios da doutrina estão ali colocados, até aqueles que devem servir-lhe de coroamento; mas era preciso dar seus desenvolvimentos, deduzir dali todas as consequências e todas as aplicações, à medida que elas se desenrolavam pelo ensinamento complementar dos Espíritos, e por novas observações; é o que fizemos no Livro dos Médiuns e no Evangelho segundo o espiritismo de pontos de vista especiais; é o que fazemos nesta obra, de um outro ponto de vista, e é o que faremos sucessivamente naquelas que nos restam por publicar, e que virão a seu tempo.

As ideias novas não frutificam a não ser quando a terra está preparada para recebê-las; ora, por esta terra preparada, não se deve entender algumas inteligências precoces que só dariam frutos isolados, mas um certo conjunto na predisposição geral, a fim de que, não só ela dê frutos mais abundantes, mas que a ideia, encontrando pontos de apoio mais numerosos, suscite menos oposição, e seja mais forte para resistir a seus antagonistas. O Evangelho segundo o espiritismo era já um passo à frente; O Céu e o Inferno é um passo a mais cujo alcance será facilmente compreendido, pois ele toca no âmago de certas questões, mas não devia vir mais cedo.

Se considerarmos a época em que o espiritismo apareceu, reconhece-se facilmente que veio em tempo oportuno, nem cedo demais, nem tarde demais; mais cedo, ele teria abortado, porque, sem desfrutar de simpatias suficientes, teria sucumbido aos golpes de seus adversários; mais tarde, teria perdido a ocasião favorável de se produzir; as ideias poderiam ter tomado outro curso de onde teria sido difícil desviá-las. Era preciso dar tempo para que as velhas ideias se desgastassem e se provasse sua insuficiência, antes de apresentar outras novas.

As ideias prematuras abortam, porque não se está maduro para compreendê-las, e a necessidade de uma mudança de posição ainda não se faz sentir. Hoje é evidente para todo mundo que se manifesta um imenso movimento na opinião; realiza-se uma reação formidável no sentido progressivo contra o espírito estacionário ou retrógrado da rotina; os satisfeitos da véspera são os impacientes do dia seguinte. A humanidade está em trabalho de parto; existe alguma coisa, uma força irresistível que a impele para diante; ela é como um jovem saído da adolescência que entrevê novos horizontes sem os definir, e se livra dos cueiros da infância. Deseja-se algo melhor, alimentos mais sólidos para a razão; mas esse melhor permanece vago; é procurado; todo mundo se dedica a isso, desde o crente até o incrédulo, desde o trabalhador agrícola até o cientista. O universo é um vasto canteiro de obras; uns demolem, outros reconstroem; cada qual talha uma pedra para o novo edifício cuja planta definitiva só o grande Arquiteto possui, e cuja economia se compreenderá apenas quando suas formas começarem a desenhar-se acima do solo. Foi esse momento que a soberana sabedoria escolheu para o advento do espiritismo.

Os Espíritos que presidem ao grande movimento regenerador agem portanto com mais sabedoria e previdência do que os homens podem fazer, porque eles contemplam a marcha geral dos acontecimentos, ao passo que nós vemos apenas o círculo limitado de nosso horizonte. Tendo chegado os tempos da renovação, segundo os decretos divinos, era preciso que em meio às ruínas do velho edifício, o homem, para não esmorecer, entrevisse as fundações da nova ordem de coisas; era preciso que o marinheiro pudesse distinguir a estrela polar que deve guiá-lo ao porto.

A sabedoria dos Espíritos que se mostrou no surgimento do espiritismo, revelado quase instantaneamente em toda a terra, na época mais propícia, não é menos evidente na ordem e gradação lógicas das revelações complementares sucessivas. Não depende de ninguém coagir a vontade deles a esse respeito, pois eles não medem seus ensinamentos pelo grau de impaciência dos homens. Não nos basta dizer: “Gostaríamos de ter tal coisa,” para que ela seja dada; e convém-nos ainda menos dizer a Deus: “Julgamos que chegou o momento de nos dardes tal coisa; julgamo-nos suficientemente avançados para recebê-la;”, pois seria dizer-lhe: “Sabemos melhor do que vós o que convém fazer.” Aos impacientes, os Espíritos respondem: “Começai primeiro por saber bem, compreender bem, e sobretudo praticar bem o que sabeis, a fim de que Deus vos julgue dignos de aprender mais; depois, quando chegar o momento, nós poderemos agir e escolheremos nossos instrumentos.”

A primeira parte desta obra, intitulada Doutrina, contém o exame comparado das diversas doutrinas sobre o céu e o inferno, os anjos e os demônios, as penas e as recompensas futuras; o dogma das penas eternas é aqui encarado de uma maneira especial, e refutado por argumentos tirados das próprias leis da natureza, e que demonstram, não só o lado ilógico, já assinalado cem vezes, mas a impossibilidade material. Com as penas eternas desaparecem naturalmente as consequências que se acreditara poder tirar daí.

A segunda parte encerra inúmeros exemplos apoiando a teoria, ou melhor, que serviram para estabelecer a teoria. Eles devem sua autoridade à diversidade de tempos e lugares em que foram obtidos, pois se emanassem de uma única fonte, poder-se-ia vê-los como produto de uma mesma influência; eles devem-na, além disso, à sua concordância com o que se obtém todos os dias em toda a parte onde há dedicação às manifestações espíritas de um ponto de vista sério e filosófico. Esses exemplos poderiam ter sido multiplicados ao infinito, pois não há centro espírita que não possa fornecer notável contingente deles. Para evitar repetições fastidiosas, precisamos fazer uma escolha entre os mais instrutivos. Cada um desses exemplos é um estudo, em que todas as palavras têm seu alcance para todo aquele que as meditar com atenção, pois de cada ponto jorra uma luz sobre a situação da alma após a morte, e a passagem, até agora tão obscura e tão temida, da vida corpórea à vida espiritual. É o guia do viajante antes de entrar num país novo. A vida de além-túmulo desenrola-se aí sob todos os seus aspectos, como um vasto panorama; cada qual extrairá daí novos motivos de esperança e de consolo, e novos apoios para reforçar sua fé no futuro e na justiça de Deus.

Nesses exemplos, tirados na sua maioria de fatos contemporâneos, dissimulamos os nomes próprios todas as vezes que julgamos útil, por motivos de conveniência fáceis de apreciar. Aqueles que esses exemplos podem interessar reconhecê-lo-ão facilmente; para o público, nomes mais ou menos conhecidos, e às vezes muito obscuros, não teriam acrescentado nada à
Instrução que daí se pode retirar.

As mesmas razões que nos fizeram omitir os nomes dos médiuns no Evangelho segundo o espiritismo, nos fizeram abster-nos de nomeá-los nesta obra, feita para o futuro ainda mais do que para o presente. Eles têm tanto menos importância quanto não poderiam se atribuir o mérito de uma coisa para a qual seu próprio espírito não participou com nada. A mediunidade, aliás, não é concedida a tal ou tal indivíduo; é uma faculdade fugitiva, subordinada à vontade dos Espíritos que querem comunicar-se, a qual se possui hoje e que pode faltar no dia seguinte, que nunca é aplicável a todos os Espíritos sem distinção, e, por isso mesmo, não constitui um mérito pessoal como seria um talento adquirido pelo trabalho e pelos esforços da inteligência. Os médiuns sinceros, aqueles que compreendem a gravidade de sua missão, consideram-se como instrumentos que a vontade de Deus pode destruir quando lhe aprouver, se não agirem segundo seus desígnios; eles se regozijam com uma faculdade que lhes permite tornarem-se úteis, mas não tiram daí nenhuma vaidade. Aliás, conformamo-nos neste ponto aos conselhos de nossos guias espirituais.

A Providência quis que a nova revelação não fosse privilégio de ninguém, mas que tivesse órgãos em toda a terra, em todas as famílias, entre os grandes como entre os pequenos, segundo estas palavras das quais os médiuns do nosso tempo são a realização: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, verterei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vossos anciãos terão sonhos. Naqueles dias, verterei do meu Espírito sobre meus servos e minhas servas, e eles profetizarão.” (Atos, cap. II, v. 17, 18.)

Mas também está dito: “Haverá falsos Cristos e falsos profetas.” (Ver o Evangelho segundo o espiritismo, cap. XXI.)

Ora estes últimos tempos chegaram; não é o fim do mundo material, como se acreditou, mas o fim do mundo moral, ou seja, a era da regeneração.

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* Embora no original da quarta edição francesa, de 1869, não conste este prefácio, nós optamos por traduzir o que consta na primeira edição, de 1865, e o inserimos aqui. (Nota da equipe revisora) Fonte: KARDECPEDIA - http://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/886/o-ceu-e-o-inferno-ou-a-justica-divina-segundo-o-espiritismo/6453/prefacio

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ação espírita na transformação do mundo - J. Herculano Pires


Ação espírita na transformação do mundo

Trecho extraído do livro Curso Dinâmico de Espiritismo - Capítulo XVII, por J.Herculano Pires.

As relações humanas se baseiam na afetividade humana. Não há afetos entre corações insensíveis. Por isso a dor campeia no mundo, pois só ela pode abalar os corações de pedra. Mas o Espiritismo nos mostra que o coração de pedra é duro por falta de compreensão da realidade, de tradições negativas que o homem desenvolveu em tempos selvagens e brutais.
Essas relações se modificam quando oferecemos aos homens uma visão mais humana e mais lógica da Realidade Universal. Essa visão não tem sido apresentada pelos espíritas, que, na sua maioria, se deixam levar apenas pelo aspecto religioso da doutrina, assim mesmo deformado pela influência de formações religiosas anteriores.
Precisamos restabelecer a visão espírita em sua inteireza, afastando os resíduos de um passado de ilusões e mentiras prejudiciais. Se compreenderem a necessidade urgente de se aprofundarem no conhecimento da doutrina, de maneira a formarem uma sólida e esclarecida convicção espírita, poderão realmente contribuir para a modificação do mundo em que vivemos.
Gerações e gerações de espíritas passaram pela Terra, de Kardec até hoje, sem terem obtido sequer um laivo de educação espírita, de formação doutrinária sistemática. Aprenderam apenas alguns hábitos espíritas, ouviram aulas inócuas de catecismo igrejeiro, tornaram-se, às vezes, ardorosos na adolescência e na juventude (porque o Espiritismo é oposição a tudo quanto de envelhecido e caduco existe no mundo), mas ao se defrontarem com a cultura universitária incluíram a doutrina no rol das coisas peremptas por não terem a menor visão da sua grandeza.
Pais ignorantes e filhos ignorantes, na sucessão das encarnações inúteis, nada mais fizeram do que transformar a grande doutrina numa seita de papalvos.
Duras são e têm de ser as palavras, porque ineptas e criminosas foram as ações condenadas. A preguiça mental de ler e pensar, a pretensão de saber tudo por intuição, de receber dos guias a verdade feita, o brilhareco inútil e vaidoso dos tribunos, as mistificações aceitas de mão beijada como bênçãos divinas e assim por diante, num rol infindável de tolices e burrices fizeram do movimento doutrinário um charco de crendices que impediu a volta prevista de Kardec para continuar seu trabalho.
Em compensação, surgiram os reformadores e adulteradores, as mistificações deslumbrantes e vazias e até mesmo as séries ridículas de reencarnações do mestre por contraditores incultos de suas mais valiosas afirmações doutrinárias.
Este amargo panorama afastou do meio espírita muitas criaturas dotadas de excelentes condições para ajudarem o movimento a se organizar num plano superior de cultura. Isso é tanto mais grave quanto o nosso tempo que não justifica o que aconteceu com o Cristianismo deformado totalmente num tempo de ignorância e atraso cultural.
Pelo contrário, o Espiritismo surgiu numa fase de acelerado desenvolvimento cultural e espiritual, em que os espíritas contaram e contam com os maiores recursos de conhecimento e progresso de que a humanidade terrena já dispôs.
Todos os grandes esforços culturais em favor da doutrina foram negligenciados e continuam a sê-lo pela grande maioria dos espíritas de caramujo, que se encolhem em suas carapaças e em seus redutos fantásticos. Falta o amor pela doutrina, de que falava Urbano de Assis Xavier; falta o amor pelos companheiros que se dedicam à seara com abnegação de si mesmos e de suas próprias condições profissionais e intelectuais; falta o amor pelo povo faminto de esclarecimentos precisos e seguros; falta o amor pela Verdade, que continua sufocada pelas mentiras das trevas.


Herculano Pires. J. Curso dinâmico de espiritismo: o grande desconhecido. Ed. Paideia, 1979.